terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Novos Vampiros de Nova Iorque


Vampire Weekend

Disco: Vampire Weekend

Ano: 2008

XL Recordings

11 faixas





O tempo passa e continuamos a ouvir que determinada banda será a salvação do rock a cada estação do ano. O novo rock caminha para estilos múltiplos definindo e buscando alternativas para necessidades consumíveis. Além disto, há uma combinação, misturas de ritmos e culturas, nem sempre compreendidas. Contudo, tendem a ser uma jogada positiva quando boas referências são buscadas na música.

Vampire Weekend vem a ser mais uma banda dessas que são lançadas primeiramente na internet. O som indie, que vem de New York logo gerou comentários na rede mundial sobre a banda que revelaria o novo rock. E seu primeiro disco lançado no começo de 2008, intitulado com o mesmo nome do grupo, aposta em uma mistura afro-western, ou afropop...

Porém, como toda banda de rock, Vampire Weekend bebe de fontes como Beatles, Talking Heads, um pouco punk, e de música erudita?! Bom, não se sabe o que realmente está levantado depois de tantas misturas musicais num único disco. Encontra-se músicas super simples como “Cape Cod Kwassa Kwassa”, “A-Punk”, com boas referências, mas instrumentalmente simples. Que não apresentam aquela energia do novo rock. Agrupam-se com estilos outros como o reggae, ou a leve batida afro, a tomar idéias de Paul Simon. Outras se assemelham com bandas nova-iorquinas que apostaram num estilo parecido: Clap Your Hands Say Yeah e The Walkmen.

"O nome da banda é Vampire Weekend. Somos especialistas em seguir muitos estilos"


Os momentos mais fortes e que superam tendências estão em músicas como “M79”, “I Stand Corrected”, “Walcott”, a primeira joga-nos para a indecisão acima: música erudita? São arranjos de cordas, floreios e a até a voz de Ezra Koenig que nos fazem pensar numa música moderna transcendente. Momentos em que a banda soa cheia. Se o Clash soube aproveitar o reggae, o Vampire Weekend soube aproveitar, além deste, a velha veia européia da música.

Nesta medida, há permissão para baterias desafiadoras, melodias mais bem formuladas, como as acima citadas, e um reggae moderno em “The Kids Don’t Stand a Chance”.

“Vampire Weekend” é um disco desafiador e não deixa a desejar, completa-se num ciclo de vertentes mais variadas possíveis, sem deixar o rock de lado.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Quando ninguém esperava, Black Mountain.



Black Mountain

Disco: In The Future


Ano: 2008


Jagjaguwar


10 Faixas






Num belo dia você junta seus amigos para tocar. E o que aparece entre o repertório? Hendrix? Pink Floyd? Led Zeppelin? Black Sabbath? Velvet Underground? Talvez Neil Young? Bandas e artistas que revolucionaram o rock, certamente, e que continuam a influenciar pelo menos noventa por cento de bandas iniciantes. E foram basicamente essas que possibilitaram o início de criação para a banda canadense Black Mountain, formada em 2004.

Um grupo de amigos e músicos, chamado Black Mountain Army, deu origem ao som de extrema diversidade e capacidade encontrado no Black Mountain. Em “In the Future”, segundo disco do grupo, há um som feito de rocha, impulsionado por misturas antagônicas. Do folk ao heavy metal, traçado por guitarras, sintetizador, baterias e vocais por vezes angelicais. O psicodelismo e o progressivo estão em jogo para reafirmar a tendência do chamado pós-rock. Mas não há somente isso, o lirismo possui força em canções que representam o folk-rock, formando o ecletismo da banda.


"Black Mountain"


Descrever o Black Mountain não é tarefa fácil. A diversidade encontrada aqui é pesada, como o próprio som do grupo costuma ser entre faixas às vezes de outro mundo. Ao começar por Stephen McBean, vocalista e guitarrista, que possui mais outras duas bandas: Pink Mountaintops e o Jerek with a Bomb. Stephen é um líder que coloca sua guitarra para falar, sendo romântica ou agressiva, ou combinando-a com seu vocal. Este, por sua vez, está atrelado à senhorita Amber Webber, cantora envolvida no Lighting Dust, assim como o baterista Joshua Wells. Nesta mistura de bandas e experimentos, viajamos no sentimentalismo, na angústia encontrada em Black Mountain.

Em “Stormy High”, faixa abre o disco, guitarras mudando de tom em solo curto, ouve-se os gritos de Amber Webber. Esta coisa cheia de formas, com fortes influências dos 70’s, descreve e define o som do Black Mountain. Porém, isto é só uma amostra curta do que virá pela frente. “Stormy High” nem é tão especial assim, por possuir uma fórmula curta. Poderia ser hit nos anos 70, e até confundida com uma música do Deep Purple. Na segunda, “Angels”, há uma virada de quase 180 graus. Uma melodia lenta, pulsante e contagiante coloca-nos em harmonia plena. As vozes de McBean e Webber se misturam e se encaixam com perfeição, num tom nostálgico. “Angels” é devastadora, ainda mais com o solo lá pelo meio da música. Metricamente perfeita, uma verdadeira canção.

"Stephen McBean"


Mas logo surge “Tyrants”, para completar outra virada. Ao começar pelo heavy-metal, sugerido no primeiro minuto de música, e logo depois um progressivo emergente das profundezas da bateria e baixo. Vem a voz lírica de Stephen, leve e limpa, enquanto teclado e guitarra dão corpo. A melodia é cortada outra vez por um violão e agora podemos viajar, como se ouvíssemos Pink Floyd. O vocal gritado de Amber é de dor. E em voz solo, ela pode realmente se soltar numa melodia mais agressiva. E chegando pelo quinto minuto, mais guitarras em crescente movimento, baterias explodem, o poder da banda se eleva. Em ritmo de viradas e mais viradas Joshua mostra sua bateria potente e sabiamente colocada. Voltemos ao lirismo e violão: viagem encerrada com perfeição de oito minutos.

E “Wucan” abre mais caminhos. Seus solos são contagiantes, guitarras falam, o sintetizador é bem colocado, vocais fazem sua parte em refrão: “So we can come together”. Amber sempre caindo com perfeição em suas passagens. Duas baterias compõem o fundo muito marcante. Surge o espaço de improviso para o sintetizador que sabe utilizar recursos incorporados. Um espaço zen, que nos sugere ir tão alto quanto o sol.

"Joshua Wells e Amber Webber"


A próxima faixa, “Stay Free”, tende ao folk, com vocais agudos de Stephen, violões e letra bucólica. Numa melodia bonita, que faz lembrar Neil Young, concentra-se em transmitir bons momentos. O sintetizador, pequenas passagens de violão e até mesmo um violoncelo no final fazem a diferença. “Queens Will Play” faz parte de uma nova seleção no disco. Começa soturna, com a voz tremida de Amber a nos falar de escuridão e demônios, a lembrar o velho Black Sabbath. Um coro surge de leve, encaminhado por guitarras e sintetizador, que explodem pelo final da música. O solo rasgado da guitarra de McBean faz lembrar os bons momentos de muitos guitarristas dos anos 70.

“Evil Ways” mostra um lado caótico da banda, onde tambores, guitarra e teclados são a exclamação do mal. Lúcifer é citado e a voz de McBean está realmente transformada. Solo enlouquecido em volume máximo, destruidor. Com um espaço mais uma vez para o baterista Joshua Wells mostrar sua habilidade. Então “Wild Wind” é a próxima canção. De tempo curto, mas de beleza inversamente proporcional a este. A música soa como a banda toda estivesse colocando seus sentimentos ali.


A gigante “Bright Lights”, de dezesseis minutos, tem pelo menos uns quatro momentos ou “movimentos”, que resumem todo o espírito da banda. Progressiva, agressiva, bela, atinge com todos os instrumentos nossos corações. Um bom rock, criativo e revolucionário por destruir preconceitos. Os vocalistas formam um diálogo e o dissolvem em inúmeras possibilidades de interação. Lá pelo meio, temos quase uma missa anunciada e tudo se reconstrói. Gritos libertários. Tudo em seu peso máximo, eles querem mais. Contudo, “Night Walks” vem encerrar o disco. Amber canta ao som único de um sintetizador. Sua voz ecoa. Parece um choro. A profundidade desta é de chamar a atenção. Ela é uma sombra e a noite anda por entre esta voz. O coro nos leva a outra dimensão. É a despedida, é a despedida.

Curioso? O ano mal começou e “In the Future” é o álbum que recebe destaques no Orkut e Blogs pela Internet.

My Space da Banda : http://www.myspace.com/blackmountain

domingo, 13 de janeiro de 2008

O que querem os Hives?


The Hives

Disco: The Black and White Album

Ano: 2007

Interscope Records

14 Faixas






Os suecos do The Hives sempre são lembrados pelos gritos de Pelle Almqvist ou pelo seu primeiro hit “Hate to say I told you so”. O que, certamente, são fatos indispensáveis. O estilo garage, meio punk com rock rapidinho, música de no máximo 3 minutos são decorrentes de todos seus discos. Porém, novidades aparecem no quarto disco da banda. Como toda banda de rock precisa evoluir para sobreviver, com Hives não foi diferente. E os estereótipos acabam conosco. Esperamos sempre o mesmo som da banda. Aí justificam: “os caras só sabem tocar aquilo mesmo”. Bom, mas se pensarmos assim, Radiohead nunca teria ido onde foi. OK?

Não que os rapazes sejam os melhores do rock atual, está longe disso. Mas conseguem fazer músicas com refrões desafiadores e agradáveis, coisa que muita banda anda com dificuldade, mesmo que isso não seja o mais desafiador do rock. O Hives mais uma vez faz um rock “primitivo”, com guitarra, baixo e bateria, em “The Black and White Album”. “Primitivo” é uma palavra forte, “básico” seria convencional. Entretanto, colocam elementos novos como um experimento dance ou uma música instrumental obscura. E, acredite, o tão famoso vocalista mudou um pouco sua voz gritada para isso.

“The Black and White Album” foi produzido por gente do pop como Pharrell Williams e do rock, como Dennis Herring e Jacknife Lee. Uma mistura notável neste álbum. Escute as duas primeiras músicas que iniciam o disco: elas poderiam estar em qualquer outro disco do Hives. São pegajosas, a primeira começa até com um grito, e respeitam a formulação de guitarras rapidinhas e batidas animadoras. O destaque para a segunda, “Try It Again” são os gritinhos infantis que caíram bem na estrutura, acompanhado por guitarras bases fortes, típicas de White Stripes. A quarta faixa, “Well, Alright”, segue no mesmo ritmo, animado, mas lá pelo meio uma queda: surpresa?! - Sim. São sintomas da mudança. Com “Hey Little World”, as guitarras providas de Whammy, estão a lembrar Jack White, mais uma vez. Ruídos e pequenas batidas eletrônicas aparecem, refrões e percussões que te pegam muitas vezes, rock sincero que dá para mexer os esqueletos.

A quinta música que compõe o disco, “A Stroll Through Hive Manor Corridors” é instrumental, lenta, de clima soturno, que poderia estar num disco do The Cure, quem sabe. Mas está aqui, perdida. Tanto que a próxima faixa repete a mesma estrutura básica já comentada. Um refrão seguido por teclado repetitivo, não é que parece com Killers? De onde vem essa coisa-máquina-pegajosa? Do power pop?! Chegamos, então, na faixa crucial, intitulada “T.H.E.H.I.V.E.S”. O baixo e guitarra parecem dark no começo, com aquela voz “Welcome”, mas quando surge a voz de Almqvist, o que é isso? A mudança pop, esse monstro que engole tudo pela frente hoje em dia. E essas letras citadas uma por uma? Copiaram do Hot Chip? Pelo menos ficou bem melhor...

E por falar em power pop é o que temos na faixa seguinte, “Return the favour”. Os gritinhos e guitarras, porém, lembram Ramones. Mais pegada pop na irritante “Giddy up”, de canto modificado, inspirado pelo rap. O disco nos mostra em maioria canções derivadas do punk. Mas o destaque está em “You dress up for Amargeddon”. O começo nem é tão inspirado, mas o refrão se encaixa com perfeição de um hino punk, algo único neste álbum.

Experimentos como na “Puppet On A String” são válidos. Piano marcante e vozes no pano de fundo. Algo que deu certo. Criativo e de qualidade. Chegamos à última faixa, “Bigger Hole To Fill”, que abrange pontos bons, como a batida meio influênciada pelo eletrônico, mas o refrão se torna repetitivo, ao longo do disco. Algo visceral é visto com raridade neste disco. E isto vai de encontro aos lançamentos anteriores da banda. Deixa a desejar em partes.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

A origem

No princípio era o rock'n'roll. Depois, somente rock. E hoje são mais de 300 variações dentre o estilo. E devemos muito às primeiras bandas, esquecemos um pouco disso às vezes. Sabe, conhecendo um pouco mais da história do rock, vemos o quanto esta é rica e fascinante.

Pegue Chuck Berry, Elvis, Bill Haley, Little Richards, Jerry Lee Lewis. E ainda outros mais como Louis Jordan ( o cara era maluco, com sua dança, usando seu sax e possivelmente precursor do "rap") e Bo Diddley que fazia músicas com um acorde apenas e uma guitarra que lembra até Sonic Youth(!). Estamos falamos somente dos anos 50. Este é basicamente o caldeirão que irá influenciar Beatles e Rolling Stones nos anos posteriores.

Peguemos então os Beach Boys, que não se limitaram ao Surf Music, criando seu disco Pet Sounds, rico e evoluido. Disco este que contagiou Paul McCartney e o levou a pensar em "algo" simplesmente assim como "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", um dos discos mais influentes de toda a história do rock.

A partir daí, temos rumos diversos para esperimentos. Veja também o Velvet Underground com seu som soturno, fazendo contatos com o Punk. Progressivo, Heavy Metal, Hard Rock. O Folk de Bob Dylan. E tudo começa a explodir.

Peguemos bandas atuais e ainda vemos características de bandas precursoras do velho rock. Num simples vídeo do Beach Boys enxergamos o Belle and Sebastian com suas mesmas experiências em vídeo. Nos riffs do Sex Pistols, Chuck Berry. Nas letras de Alex Turner, um pouco de Dylan. E é quando tudo se encaixa, tudo se entrelaça, está interligado.

Por isso afirmo, qualquer susto ou preconceito não convém.



* Pet Sounds - Beach Boys



*Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band - Beatles

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Fim de Ano

Bom, primeiramente desejar um Feliz Natal e um ótimo 2008 para todos.

Devo dizer que o ano não foi ruim, espero que tenham gostado do conteúdo daqui.
Viajo amanhã e volto dia 2 de janeiro. Admito que não preparei lista exclusiva do "Ciclo do Contratempo" de melhores do ano, mas escrevi algumas coisas para o Boris vs Laika ( http://borisvslaika.clickbest.net/ ) .

Temos lá lista de vídeos, singles, revelações e discos(ainda a ser postada) de 2007.

Um abraço,

Lucas Benedecti

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

O novo grito da Nação


Nação Zumbi

Disco: Fome de tudo


Ano: 2007


Deckdisc


12 faixas





É carnaval, é inferno, é fome, festa na mata. Ficção científica nordestina. Olinda e Recife são citadas. Multi-cor, ultra-som, olhos de espelho, cabeça de leão. De todo lado surge um som. Seja samba, rock, eletrônica, o infinito. A música mundi-regional, que brota do realismo surreal da Nação Zumbi. Em “Fome de tudo” temos o trabalho mais conciso da Nação desde os tempos de Chico Science. A “fome” se torna tema central para algo tão visceral e explosivo. Porém, temas reluzem como ouro por aqui. Há espaço para o intimismo, para o diálogo, discussões e questionamentos nas letras de Jorge du Peixe.

A Nação Zumbi veio armada e colorida, com sinestesias, guitarras espaciais e o maracatu atômico. Elevemos nossas almas para ouvir o poderio das mais refinadas distorções nordestinas. Um trabalho feroz que está quente por si. Remete-nos a imagens nordestinas, ao paraíso frustrado e a muitas figuras importadas de bem longe. Nem somente de ritmos nordestinos vive a banda, aliás, o regional não existe mais puro, dá lugar à nova fórmula. Esta foi obtida de tempos vividos, experiência que deu lugar à consciência e ao amadurecimento do trabalho.

A primeira faixa, “Bossa nostra”, que também é o primeiro single, tem poder das guitarras de Lucio Maia, por sinal um guitarrista sempre em ascensão, da batida e pegada forte na bateria e das letras cheias de figuras de linguagem, cada vez melhores, de Jorge du Peixe. “Cada cor tem o seu cheiro, cada hora lança sua dor”, na mente dos adeptos do Mangue Beat. Crítica, espontânea e rica, com um refrão corta caminhos e expressões pop com uma única frase: “Elevei minha alma pra passear”. Em “Infeste”, segunda música, temos um dos refrões mais pertinentes do disco. Com o peso das guitarras distorcidas, e tambores estourando num ritmo quante, canta du Peixe: “costas quentes/ dentes acesos/ olhos de espelho/ cabeça de leão/ lançando o perigo na ponta do enfeite/ estica o caminho quem manda no chão”. O perfil da terra, do nordestino e das condições de tempo são mostrados em pura poesia mágica. O diferencial da Nação está sempre ali do futuro ao passado. Em “Carnaval”, a descrição da folia de Olinda e Recife aparece como “multi-cor”, “ultra-som”. E Jorge brinca: “Olha o frevo aí, trava a perna”. Notas curtas e picadinhas na guitarra recheada de efeitos dão vida a musica. Aqui surge a partição de parte da Orquestra Popular de Recife. Trompetes modernos em estilo jazzístico e “Órgão National” são parte de participações especiais, mais do que eficientes no disco.


“Inferno”, que surge soturna, conta com a participação da cantora Céu. Numa definição especialíssima do próprio “inferno”, temos vocais sussurrados e a voz profetisa de Céu que aparecem dando toque essencial a uma das músicas mais bem produzidas e significativas do disco. As guitarras são contidas e explodem no clímax. A percussão é um detalhe que dá alma e a Nação soube utilizá-la nesta música. Daí segue uma música que quebra um pouco as influências do rock, “Nascedouro”. Samba, metais, violão e ritmos cubanos. Caminhos outros seguidos funcionam. E são misturas e arranjos modernos que fariam inveja ao Radiohead. “Onde tenho que ir” possui cítara, batida quase eletrônica e rock em suas entranhas. “Assustado”, uma pegada genial no baixo, percussão e guitarras wah-wah soando perfeitamente numa melodia tribal, próximo do dub, do reggae, e por final um refrão que tem descendências da guitarra de Hendrix, palmas e tambores. Toga Ogan e Jorge du Peixe fazem uma de suas melhores canções/letras, certamente, que lembram muito Chico Science.

Chegamos a “Fome de tudo”, faixa mais pesada do disco. Visceral, moderna, transcendental. Vozes modificadas, guitarras em peso máximo gritam eletronicamente, tambores e bateria de Pupillo em atuação condizente com tudo. O que a fome faz? O que já fez? “A fome de tudo universal com o tempo inteiro ao seu favor”. “A fome tem uma saúde de ferro” – exclama Jorge du Peixe. São temas difíceis de se encontrar por aí, mas dizem quase tudo sobre um sub-mundo tratado pela Nação Zumbi. “Toda surdez será castigada” aparece como uma cantiga melancólica. Aqui há pessimismo, em melodia triste, du Peixe e Junio Barreto cantam. A letra remete a tempos de guerra onde “já soltaram as bombas em alto volume/ mesmo assim nem fizeram sombra/ na zuada o silêncio gira/ vagueia e acaba matando a manhã.” Efeitos de lap-top ajudam a dar clima espacial, numa melodia trabalhada por tambores e bateria.

Mais do mesmo em “A culpa” e “Originais do sonho”, com a diferença de programações eletrônicas, rudimentos carregados de Pupillo na bateria, ficção científica e o experimentalismo nas letras. Fazem lembrar o tempo em que Chico cantava em que uma sobremesa lhe esperava em casa. E se todos dias nascem deuses, como diz na letra da última canção, “No olimpo”, a banda foi iluminada por um na realização desta. Uma ciranda embalada por esperança e uma alegria única. Dotada de harmonia, frenesi e arranjo memorável de cordas. Dançante e ao mesmo destruidora. Retrata os novos tempos com leveza e sabedoria. O som e espírito da Nação Zumbi renascem sempre que escutamos uma obra como essa.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Thurston Moore - Trees Outside The Academy













Thurston Morre

Disco: Trees Outside The Academy

Ano: 2007

Ecstatic Peace

12 Faixas



As guitarras bases distorcidas dão lugar a violinos e violões. A bateria/percussão fica na pegadinha Sonic Youth. Solos merecem ainda a velha guitarra elétrica. Mas agora as melodias têm mais prioridade, a barulheira fica de lado, em parte. Vocais susurrados, como só Thurston Moore sabe fazer. Junte, além disso, letras e canções de tom noise/folk a participações especiais que fizeram a diferença no disco. Essa mistura levou-nos à essência de “Trees Outside The Academy”, disco solo de Moore.

Depois de doze anos sem lançar discos (solos, obviamente), o cantor, guitarrista e compositor resolveu se aventurar por aquilo que não havia explorado: o acústico. É curioso, no mínimo, ver Thurston “trocar” seu instrumento elétrico por um violão. Mas, por incrível que pareça, ele faz algo parecido com o instrumento acústico, explorando solos e lições vindas desde o começo de carreira. Aí vem a pergunta que todos fazem: parece com Sonic Youth? – Claro! Afinal, estamos falando de um dos mentores da banda, e seu jeito de compor não se modificará por completo. O que muda basicamente aqui são os arranjos, dando-nos canções mais “pop” e/ou mais fáceis de ser compreendidas. Não há o som seco e sujo do SY. Entretanto, alguns acordes do violão de Moore nos fazem lembrar sua banda, além da bateria e percussão comandada por Steve Shelly.

Para compor o disco, Thurston uniu-se ao guitarrista do Dinosaur Jr, J. Mascis, que emprestou seu estúdio caseiro e acabou fazendo algumas guitarras no CD. O violino que surge com freqüência é de Sâmara Lubelski. Foi um achado, um simples toque faz muita diferença. E, se a moda agora é colocar violino em toda banda de canto de esquina, Moore já arrumou a sua violinista. Foi um instrumento que se adaptou ao seu trabalho de maneira peculiar, fazendo bases lentas, harmoniosas, sem exageros ou floreados. A dramaticidade do instrumento é realizada aos poucos, ao movimento de cada música percebe-se o quão preciosos são seus graves e agudos.

Há de se notar que vilões corda de aço ganham expressão nas mãos dos músicos. Não temos ritmos muito rápidos, tem-se mais prioridade em sentimentos que vão desde um solo de guitarra elétrica cortando tudo, violinos ou a voz de Thurston nos repetindo algo. “Frozen Gtr” e “The shape is in a trance” refletem bem isso, dando início ao disco. São canções simples, mas bem trabalhadas, lembrando algo de Sonic Youth, pela bateria. Entretanto, vemos brilhar a terceira faixa, “Honest James”, certamente a mais comovente do disco, por sua letra, melodia, vocais e violões. Chega a ser quase instrumental (mais da metade da música, na verdade) e nos coloca no céu literalmente por sua delicadeza. Christina Carter, vocalista do Charalambides, e Moore cantam juntos nessa faixa, fazendo todo o diferencial do disco.

Adentramos o “Trees Outside The Academy” e vemos mais progressões de violões e solos num clima sempre tenso, como lá pelo meio de “Silver>Blue”. Uma característica das guitarras são sempre a busca pelo além. Surpreende-nos, muitas vezes. Ruídos também se misturam às músicas, como não poderia faltar. Temos canções acústicas maduras que Thurston Moore foi capaz de criar, em “Fri/Emd” ou “Never Day”, folk misturado a roupagens modernas, entretanto, a primeira tende ao pop. Guitarras sujas pouco aparecem, mas formam parte do disco. “Wonderful Witches”, primeiro single do disco, explica isso, buscando influências grunge e do próprio Sonic Youth. Há também “Off Work” que mescla percussão, ao som esclarecedor do violino e guitarras sujas, criando uma sonoridade única. Divide-se em duas, sendo instrumental, chegando sempre ao obscuro e caótico, como um adolescente brincando com sua guitarra. Daqui a pouco vem o acústico e a resolução é simples: a história tem seu final doce. Moore gosta também de pianos, basta ouvir a “American Coffin”, que surge ao ruído e logo aparece, como num sonho, longe e cheia de ecos.

Quando se trata de criatividade, não há discussões sobre as músicas de Moore, sempre atento ao inatingível. O rei do noise rock dedica ainda nos seus discos faixas com 36 segundos de apenas ruídos. Porém, formula canções de seis minutos instrumentais cheias de clímax e ímpeto, nervosas como no caso de “Trees Outside The Academy”, que dá nome ao disco. Suas músicas são eternas experiências que arrancam das veias certa revolta e liberdade. Thurston é corajoso. Espere tudo dele, inclusive a última “música”, que nos remete ao passado do músico com 13 anos apenas. Já fazia travessuras quando nem tinha instrumentos em mãos. São lembranças que consistem num apego do próprio compositor. Para nós não significa muita coisa.


Se Thurston atinge os limites anti-pop?! Nem tanto. São coisas que se perdem com o tempo. Mas o tempo é algo interessante, é relativo. As canções que observamos aqui revelam o íntimo e não há alvos a serem atingidos diretamente. Música para sentir.