sexta-feira, 10 de agosto de 2007

A cultura dos caranguejos com cérebro


Chico Science e Nação Zumbi
Disco:Afrociberdelia
Ano: 1996
Chaos/Sony Music
23 faixas

Afrociberdelia.Um nome estranho, mas que tem seu significado quando se trata de ficção científica, psicodelismo, cultura afro e cibernética ao som de Chico Science e Nação Zumbi. O MagueBeat, movimento que teve sua origem em Pernambuco, é embalado e reverenciado por parte de um disco que propõe arte para todos. Com uma diversidade imensa de ritmos, cores e protestos, Chico Science mostrava-nos uma mistura de viagem no tempo, lirismo, poesia e cultura regional. Tudo isso leva-nos a uma complexa compreensão da música proposta. A linguagem e os ritmos, sejam eles regionais ou internacionais, formam uma figuração única rica em sentidos e significados. Por outro lado, por mais que não tenhamos o mínimo de conhecimento sobre o que nos fala/canta Chico Science (o que é bem difícil), sua música tem o poder de nos levar a uma dança frenética. Percebemos o quão forte é seu grito de esperança na arte de fazer um som verdadeiro, principalmente para os jovens que habitam esse mundo cruel e perdido entre valores. Afrociberdelia, então, vem a ser, segundo o texto de Bráulio Tavares no encarte do CD, uma expressão do ano de 2102, junção de África+Cibernética+Psicodelismo, com o seguinte significado: “A arte de cartografar a Memória Prima Genética (o que no século XX era chamado “o inconsciente coletivo”) através de estímulos eletroquímicos, automatismo verbais e intensa movimentação corporal ao som de música binária”. Vamos ao disco...

“Eu vim com a Nação Zumbi, ao seu ouvido falar/ quero ver a poeira subir/ e muita fumaça no ar/cheguei com o meu universo/ e aterriso no seu pensamento/ trago as luzes dos postes nos olhos/ rios e pontes no coração/ Pernambuco em baixo dos pés/ e minha mente na imensidão”. Assim começa Chico Science a cantar na primeira faixa (Mateus Enter ou Intro). De cara temos o som da Nação, com guitarra pesada e percussão, na letra Chico diz o propósito de vinda ao nosso ouvido. E tem muito a nos falar ainda. Começa O Cidadão do Mundo, uma das músicas mais fortes do disco. Seu groove de baixo é perfeito, o violão nos traz ao regionalismo e a bateria meio que eletrônica, diferente das outras que compõem o disco. Há ainda samples de músicas como “Bat Macumba”, de Gil e Caetano. O refrão é marca registrada da banda, com fortes tambores de maracatu: “Eu pulei e corri no coice macio/ só queria matar a fome/ no canavial na beira do rio”. Mais à frente, Chico faz referências a Recife e ao movimento MangueBeat nos versos: “Daruê Malungo, Nação Zumbi/ é o zum zum zum da capital/ só tem caranguejo esperto/ saindo desse manguezal”, ou seja, caranguejos com cérebro saindo dos mangues de Recife, nada mais específico para definir tal movimento. Para finalizar, ainda na mesma faixa, um rap que sintetiza bem a realidade brasileira. Um pivete vindo do interior passa sufoco por não conhecer as gírias da cidade grande. Seria o cidadão do mundo o pivete, ou esse se refere aos homens da cidade? Parte da interpretação de cada um.



A terceira faixa, Etnia, explora a levada de percussão, guitarra e baixo muito bem formulados e uma bateria típica da Nação Zumbi. Tambores, solos hendrixanos e uma exaltação e incentivo à cultura popular na letra de Etnia. A abordagem socio-política de Chico tende para uma unificação da sociedade brasileira (ou mundial?!), não importando a diferença étnica/cultural de cada pessoa. Ainda aparecem expressões que definem a miscigenação proposta na música: “maracatu psicodélico”, “Berimbau eletrônico”... Chegamos então a outra dimensão com Quilombo Groove, uma das muitas instrumentais que estão presentes no disco. Ritmos africanos no começo e a guitarra de Lucio Maia mais rockeira do que nunca, vem um som dali meio psicodélico, tambores com eco que permanecem até o fim. Entra Macô com uma levada funk na guitarra “wah wah”, tambores explodem, acompanhados da voz de Chico. Nesta há participação de Gilberto Gil e Marcelo D2. Uma letra que pode parecer estranha, quando se tem um refrão “Macô/ macô/ macô...”, mas é quase um hino da banda. São essas coisas que não se explicam, se sentem. O regional está tão presente, porém, nos sentimos em casa.

Logo após vem Um passeio no Mundo Livre. Com uma levada cheia de swing da guitarra, ótimo arranjo de metais e fortíssima bateria. O melhor é como a música se transforma lá pelo final. A letra de Chico expõe um mundo sem sociedade, um lugar onde se possa ir e vir sem ser incomodado, um mundo sem preconceitos sonhado e idealizado. Uma boa música e letra que mostra a consciência de Science rondando os mínimos cantos do mundo (como o bairro Peixinhos, onde muitos da banda cresceram) até o globo como um todo. Chegamos a sétima faixa, Samba do Lado, que brinca com a música tipicamente brasileira. Chico pergunta: “E você samba de que lado/ de que lado você samba?”. O efeito de guitarra “wah wah” é muito bem composto aqui. Lucio Maia usa o volume como um segredo nessa música e, no refrão, utiliza uma escala que permuta tons. Que venha Maracatu Atômico agora! A música de Jorge Mautner e Nelson Jacobina é mística, simples (também complexa) e poética. Anteriormente gravada por Gil em 73, agora se torna um dos maiores sucessos de Chico Science e Nação Zumbi. Ninguém duvida que uma letra tão cativante, com um ritmo tão zen, mas ao mesmo tempo dançante, faria o som da Nação se eternizar. O refrão é daqueles que poucos sabem o que significa, mas todos cantam (Ana ama eu, na versão original, sofre adaptações de Chico). E nisso, Maracatu Atômico outrora fora e é mais um hino.



Já O Encontro de Isaac Asimov com Santos Dumont migra para um espaço distante, ao som de um baixo hipnotizador e efeitos de computador, Chico manda sua mensagem quase metafísica, complicada de se entender. Algo como se o pensamento fosse mais forte que as leis da física. A música seguinte é Corpo de lama. Difícil de ser analisada, meio fantasmagórica, sombria como “aquele grupo de caranguejos ouvindo a música dos trovões”. Como se fosse um auto-reconhecimento, o eu lírico procura-se entre imagens da natureza, pensamentos e outras pessoas. No fim, Science diz: “deixar que os fatos sejam fatos naturalmente, sem que sejam forjados para acontecer”. Entramos, então, no mundo mágico de Sobremesa, onde borboletas se equilibram no espaço e uma cadeira flutua num espiral. A vida louca da cidade é exposta, enquanto a personagem acaba por lembrar que uma sobremesa lhe espera em casa. É uma música curiosa que mistura o inglês e português. A guitarra viaja como numa música ambiente, tambores e sopros complementam.

Manguetown é outro destaque do Afrociberdelia. “Andando por entre becos/ andando em coletivos/ ninguém foge ao cheiro sujo da lama da Manguetown...” A cidade do mangue, a capital Recife, fica mais evidente nas letras de Chico. Este também relata, em uma antiga entrevista, sua preocupação com o mangue e com a população ribeirinha. A letra “suja” de Manguetown refere-se justamente à poluição do mangue: “fui no mangue catar lixo,/ pegar caranguejo,/ conversar com urubu”. Assim termina a música e, mais uma vez, a cozinha (baixo e bateria) e a guitarra estão no ponto. Passemos agora para uma parte mais “pesada” do disco. Percebe-se pela guitarra distorcida de Lucio e o forte ritmo de tambores. Um Satélite na Cabeça é um grito de rebeldia. “A TV não tem olhos para ver ... conquistando seu próprio espaço/ é onde você pode estar agora”. É uma fuga do mundo, através de suas idéias, pensamentos. Depois daí, um Baião Ambiental Dub para relaxar. Impressionante como os ritmos se casam bem. Um baião viajante do espaço cósmico, destaque na parte instrumental do CD. Depois seguem duas músicas de guitarras super pesadas, casando o heavy-metal e os ritmos nordestinos. A primeira, Sangue de Bairro, fala de Lampião, limoeiro, catingueira e lamparina, nada mais nordestino do que isto. Esta ainda é trilha do filme “Baile Perfumado”, sobre Lampião. A segunda, Enquanto o Mundo Explode, fala de globalização e consumismo de um modo bem específico: “Um curupira já tem seu tênis importado”. Forró, baião e ritmos de Umbanda são apresentados nestas últimas faixas. Interlude Zumbi lembra bem o som de outra banda da mesma região, o Cordel do Fogo Encantado. Aparece o som do berimbau, ritmos africanos e...



Surge um violão ritmado, numa melodia mística, o som do tambor, que não muda de compasso, e todo lirismo ao som da voz de Chico está presente. Criança de Domingo traz consigo uma magia única. Faz-nos voltar aos tempos de criança. Amor de Muito é igualmente viajante. Um ritmo cubano no começo e uma letra que fala de esperança no amor. Conta a história de um casal que se guia pelo mar. Em Samidarish, de Lucio Maia, nada de tambores. Experimentações com guitarra e baixo. Por fim, teclados e um poema muito bem interpretado por Chico Science, que pergunta: “Quem mandou você falar de mim?”. E tudo se encerra.

– Não! Temos ainda três remixes de Maracatu Atômico, para provar a influência eletrônica da Nação. Reggae, outra trip hop e atomic version. Mesmo sendo de músicas repetidas, os remixes são criativos, dançantes e caem bem numa rave. E é isto, saímos de maracatu para acabar numa festa eletrônica.

É triste dizer que depois de Afrociberdelia, segundo disco da banda, Chico Science nos deixou num terrível acidente de carro, faz dez anos. Mas suas músicas continuam vivas e estão aí para serem escutadas e refletidas.

domingo, 22 de julho de 2007

Battles
Disco: Mirrored
Ano: 2007
Warp Records
11 Faixas


A cada dia em que se descobrem bandas como Battles, fica mais difícil saber quais os caminhos do rock atual. Esqueça todas as salvações do rock já aclamadas pela imprensa. Afinal, hoje está complicado de se definir os estilos nesse universo de misturas e experimentalismo. Por exemplo, essa banda: poderíamos encontrar mil e uma definições aliadas ao som “rock” que nos mostra o Battles. Será que o rock puro ainda existe? A verdade é que em vez de procurarmos uma “salvação” ou jogarmos todo estrelismo em certas bandas, deveríamos prestar mais atenção em bandas do tipo Battles que produzem, acima de tudo, música boa.

Em Mirrored, primeiro disco da banda nova-iorquina, encontramos influências muitas. Do tipo que não importa o que vão pensar: o som abrange tudo. Desde o eletrônico ao Heavy-Metal, temos teclados, guitarras, laptops, baixo e uma bateria de fazer inveja. O grupo conta com John Stainer, ex-baterista do Helmet; Ian Williams, ex-guitarrista do Dom Caballero (banda de rock instrumental americana); Dave Konopka,baixista e guitarrista, ex-Lynx; e Tyondai Braxton (filho do músico jazzista americano Anthony Braxton) que cuida dos vocais, teclados e guitarra. Um time pesado para um som nada simples, que pode lembrar 65daysofstatic, Animal Collective ou ainda Explosions in the Sky. Se nunca ouviu nenhuma dessas bandas, procure urgente! E não se espante se o som for mais instrumental do que pensava, essa é uma das características dessas bandas classificadas como Post-Rock. Enfim, esta é só uma nomenclatura para uma corrente de bandas que tendem ao experimentalismo, a um rock progressivo, com músicas que podem chegar a dez minutos e utilizam muitas vezes de sons incomuns. Battles é uma delas. Basta ouvir o primeiro single do disco, intitulado “Atlas”.



“Atlas” tem um ritmo contagiante formulado a partir da bateria e batidas eletrônicas. Guitarras viajam junto da voz modificada de Braxton, que chega a ser engraçada. Bom dizer que a voz nesse disco, sendo modificada pelo computador, ganha um papel diferente, não o apenas de cantar, mas de simular notas musicais como se fosse um teclado, por exemplo. O mestre Tom Zé já previra isto outrora, em seu disco. Poucas palavras é o que se encontra em Mirrored. Apreciemos o instrumental, então, e os cantos tribais no começo de “Tonto”, quarta faixa do disco. Impressionante o desenrolar desta faixa, escalas de guitarra fora do normal, bateria que vai do baião(!) até o Heavy-metal e esse baixo que entra tão poderoso?! Depois tudo cai num compasso lento e surge o mistério. A música acaba por nos deixar assim lentamente.

Músicas como “Leyendecker” mostram o lado mais pop/eletrônico da banda. Mas a bateria continua ali, é fato. Não pense que o baterista será poupado. E mais: Bateria comum, nada de eletrônica! Essa característica é de chamar atenção, presente em todas as músicas. Ouça ainda “Bad Trails”, um passeio por vocais que lembram muito o Animal Collective, assim como a “Ddiamondd”.

Do lado mais pesado do CD, temos “Snare Hanger”. Guitarras e bateria em movimento seguem um baixo marcante. Há ainda teclados, barulhinhos eletrônicos e cantos ritmados que acompanham todo o disco. “Tij” também é destaque. São criados temas infinitos de guitarra em cima da mesma batida. E é uma situação disesperadora. Onde tudo isso vai parar? Em gritinhos efêmeros ou na guitarra mais distorcida? Por que não nos dois? Por fim, “Race out” nos presenteia com diálogos de guitarra no melhor estilo Battle de ser. Para que um final melhor?

terça-feira, 10 de julho de 2007

Silverchair
Disco:Young Modern
Ano: 2007
Eleven/Atlantic Records
11 Faixas




Segundo Daniel Johns, vocalista e guitarrista do Silverchair, a banda encontrou neste quinto álbum sua verdadeira sonoridade. Young Modern é intenso, bem trabalhado e, por fim, soa como uma obra completa, pois passeia pelas várias vertentes do Rock e da carreira do grupo.

O álbum realmente surpreende para uma banda que estava parada há mais ou menos quatro anos. Daniel Johns, Chris Joannou e Ben Gillies, depois das férias, entregaram-se a um som cada vez mais ousado do Silverchair. Não se trata apenas de uma continuação do Diorama, disco lançado em 2002, mas de uma evolução e descoberta de caminhos próprios, que vão desde a voz mutável de Daniel, até os diversos estilos (rock, pop, blues e eletrônico) que adentram o álbum.



O Young Modern abre com uma música (Young Modern Station) que começa eletrônica, punk e, por fim, chega ao pop, afinal, é assim que se pode definir esta composição que está recheada de guitarras pesadas e de vocais doces: Silverchair está de volta! Logo após, Straight Lines surge como uma balada romântica, primeiro single do disco, ao som de pianos e um refrão bem Coldplay, ao longe se escuta uma orquestra, reflexos de Diorama?! – Sim! É só começar a terceira faixa para notarmos a orquestra tão esperada para uns e tão estranha para outros. Em If You Keep Losing Sleep a casa cai. Aqui está o som. Aproveite, ria e se delicie: a criatividade flui tanto que não se sabe onde a canção vai parar. Já a quarta faixa,Reflections of a Sound, está mais para uma balada romântica, mostrando-nos a diversidade existente no disco.

Mas é na quinta música do Young Modern que está o ápice de tudo. Those Thieving Birds (Part 1) / Strange Behaviour / Those Thieving Birds (Part 2), três músicas em uma, o Silverchair se resume nesta que está mais para uma sinfonia. Delicada na primeira parte; com um superarranjo orquestrado, na segunda, cheio de guitarra, bateria e baixo pulsantes, chega a ser impressionante; na terceira voltamos aos belos vocais de Daniel que se transformam em cada momento da música.



Depois seguem músicas divertidas como That Man That Knew Too Much e Waiting All Day, esta última com direito a uma guitarra meio caribenha no começo. Enfim, são boas canções, com ótimos refrões e melodias. Ao chegar em Mind Reader, o cenário muda. A influência de Blues aparece,com uma voz totalmente alterada de D. Johns. Piano e guitarra fazem algo parecido com Lenny Kravitz?! Mas logo o Grunge fala mais forte e faz Johns gritar: “Don’t know what you want/ don’t know what you want/ No I’m not a mind reader baby, come on!”.

Temos ainda Low, outra boa canção que explora guitarras com slide, muito piano e sintetizador. Insomnia segue num ritmo mais pesado, mas nada que impressione muito depois de tantas canções encantadoras. Para finalizar com chave de ouro, surge All Across The World, canção que lembra o psicodelismo de Beatles, com algo enigmático na melodia, e um refrão que marca pela beleza. A orquestra dá um toque especialíssimo no final e tudo acaba serenamente. O trio poderá dormir tranqüilo, pois seu trabalho continua digno de uma grande banda.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Coco and Rosie



CocoRosie
Disco: The Adventures of Ghosthorse and Stillborn
Ano: 2007
Touch and Go Records
12 Faixas





Às vezes me pergunto se tenho um gosto realmente diferenciado.

As irmãs, Sierra Rose Casady “Rosie” e Bianca Leilani Casady “Coco”, que formam o CocoRosie, estão além de uma dupla freak folk. Digo isto porque não há limites para a criação em suas músicas. As batidas de hip-hop (beat-box), aliada aos mais diversos instrumentos que você possa imaginar, levam-nos aos mais variados campos, antes nunca explorados. Se existe música moderna original?! CocoRosie prova-nos que sim. E, acima de tudo, com qualidade. A dupla, no seu terceiro disco, Adventures of Ghosthorse and Stillborn, firma sua carreira.




É um som de difícil definição. Inicialmente, em 2003, as irmãs criavam uma música independente dentro de um apartamento. Seu primeiro disco, La Maison De Mon Revê, mostrava o som das inocentes CocoRosie: com um violão, piano, brinquedinhos de criança e duas vozes extremamente marcantes, nascia o propósito da dupla. Fazer arte com o que tinham: era isso. Suas gravações caseiras, misturadas a um certo bucolismo e melancolia nas músicas, trazem lembranças do bom Blues e Folk. Temos um romantismo exacerbado, característica que envolve a banda até atualmente, assim como canções belíssimas que nos fazem lembrar a infância em melodia doce. Mais tarde, em 2005, no segundo álbum, Noah's Ark, temos um CocoRosie mais seguro, maduro, e pronto para o mundo. Suas gravações estão em melhor qualidade, porém, é o mesmo espírito que move a banda. Nota-se claramente as influências de Opera, por parte de Sierra, e o Hip-Hop, de Bianca. O Noah’s Ark só vem a acrescentar e a voz de Bianca (“Coco”) torna-se reconhecida, (embora, para muitos, estranha) transformando-se em sinônimo da banda.




No seu mais recente disco, Adventures of Ghosthorse and Stillborn, o duo continua a crescer em idéias e experimentalismo. Parece um disco mais “alegre”, com ritmos mais dançantes encontrados logo nas primeiras faixas. Mas não o é. As músicas caem num tom meio depressivo, trazendo baladas com batidas eletrônicas, teclado e, claro, a voz inesquecível de Bianca. A garota “Coco” tem um canto diferente, que consegue encaixar-se tanto nas músicas mais lentas e românticas (ouvir Raphael e Werewolf), quanto nas mais pulsantes e ritmadas (ouvir Rainbowarriors e Japan). Impressionante o experimentalismo que encontramos nesta última. Japan é um reggae! Sim... mas, lá pelo meio tudo pára e ouvimos o canto lírico de Sierra “Rosie”. Mas que diabos?! Isto é CocoRosie! Esperemos mais o que?



É de chamar a atenção, também, a voz de Sierra, que é limpa e suave. Parece bem o oposto da voz de sua irmã. E as duas se combinam e complementam nas várias canções do álbum. O disco fala, às vezes, de um mundo dos sonhos, muito da infância e adolescência das duas (bom dizer que os brinquedinhos de criança não foram esquecidos, aparecem aqui e ali), e, por fim, de experiências introspectivas e românticas. A paz que se encontra neste trabalho é de outro mundo. Fato que comprova um CocoRosie ligado às suas raízes. Mesmo com batidas eletrônicas, ou hip-hop, sempre temos o piano de Sierra para nos desmancharmos em sentimentos. Os opostos caem extremamente bem. E isto faz a glória das irmãs.



site oficial: http://www.cocorosieland.com/

domingo, 29 de abril de 2007

A magia de Patrick Wolf


Patrick Wolf
Disco: The Magic Position
Ano: 2007
Loog Records
13 Faixas

O terceiro álbum do jovem Patrick Wolf é encantador. Mostra-nos uma música contemporânea que respeita as influências clássicas (eruditas), sem deixar de lado as batidas eletrônicas ou os ritmos dançantes. O compositor, cantor e multi-instrumentista inglês repete sua dose de misturas musicais em “The Magic Position”. Porém, mais maduro e consciente de sua música e estilo.

Devo admitir que o disco não soou bem à primeira vez que escutei. Pareceu-me tão alegre, tão pop, tão dançante que me desagradou. Mas penso que esta é realmente a proposta do disco. Patrick Wolf, agora com novo visual, ruivo, lança em seus singles justamente músicas mais dançantes, como “Accident & Emergency” ou “Magic Position”. A primeira, embora trata de um tema que fala de terrorismo, traz batida alegre com instrumentos de sopro numa melodia ritmada. Pode parecer meio contraditório, mas é a proposta que deu certo. A segunda é totalmente “pra cima”, como aquelas canções que não saem da sua cabeça. Violinos, bateria, palminhas e refrão compõem a música que dá nome ao disco.


Entretanto, não há apenas músicas do mesmo gênero. O lado sombrio do músico torna-se presente em toda sua obra, e nesta não foi diferente. Diria até que grande parte do disco é composta de músicas lentas e sombrias. Porém, não chegam com a intensidade das outras, que tomam conta do CD, chamando mais atenção. A característica de Wolf sempre foi essa divisão entre melodias calmas que tendem para a música erudita (escutar “Magpie” e “Enchanted”) e as batidas dançantes (escutar “Get Lost”). É impressionante, também, sua habilidade em misturar as duas coisas (escutar “The Stars”). Violino e eletrônica se complementam com facilidade, delicadeza e harmonia que são indescritíveis nas composições do jovem.

Os arranjos e instrumentos estão bem selecionados. São partes do amadurecimento de Patrick que se vê nitidamente no seu terceiro álbum. Há também participações especiais de Marianne Faithfull e Edward Larrikin do Larrikin Love (http://www.myspace.com/larrikinlove), além de contribuições de membros da Orquestra Sinfônica de Viena. As cordas e piano de Wolf aparecem em todas as canções, praticamente. O disco parece mais cheio, robusto, como se fosse de uma banda e não de apenas um músico, comparando-o aos anteriores.


“The Magic Position”, de Patrick Wolf, faz brilhar a nova música, sem preconceitos e com, acima de tudo, qualidade.

My Space de Patrick Wolf: http://www.myspace.com/officialpatrickwolf
Site Oficial: http://www.patrickwolf.com

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Arcade Fire - Capítulo 2




Alguém me explique o que é isso. Para quem nunca viu a banda tocar dentro de um elevador ou tão perto dos fãs.

Aproveitem as ótimas performaces das músicas "Neon Bible" e "Wake Up".

Brilhante.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Arcade Fire - Neon Bible

Banda: Arcade fire
Disco: Neon Bible (2007)

Menger Records

11 faixas







O NB é um bom disco. Porém, falta alguma coisa. E por isso se torna "pior" que o primeiro. Funeral é completo da primeira até a última faixa. Não sinto a continuidade das faixas no segundo.

Acho que faltou algo mais inovador, talvez. Muitas canções do NB retomam os anos 80, não que isso seja ruim, mas é algo que não me agradou no sentido de ter a impressão "já ouvi isso antes". Exemplos: "Black Mirror" e "Keep the car running"

Por outro lado, a banda veio a nos presentear com as ótimas entradas (Intervention) e saídas (My body is a cage) do órgão usado nas músicas. Foi um achado. Arcade Fire combina bem com o som do instrumento.


As canções com Regine desapareceram? -Não! Black Waves/Bad Vibrations está lá para confirmar sua participação (fraca) no disco. Digo fraca pelo maior destaque que mereceria a moça. Cadê suas canções? Esperava um pouco mais de sua voz no disco. Black Waves brilha quando Win começa a cantar..


"Intervention" é a melhor, na minha opinião, e ainda tem cara de "Funeral". Violino, guitarra, baixo, órgão, bateria e a voz de Win: tudo soando maravilhosamente bem. "No cars go" está bonita também, mas senti falta de um violino no final: na versão do NB há um teclado em troca.
E já que "No cars go" aparece no disco, por que não acrescentar também a linda "Cold wind"? Ah, mas isso já é outra discussão.


Para finalizar, o que me chamou atenção foi (Antichrist Television Blues), com letra e ritmo forte, meio Dylan, com violão, palminhas e vocais apressados. E a música que dá título ao disco, "Neon Bible", é sutil, delicada e tem algo que não consigo explicar. Gostei de sua melodia.

Canções mais intimistas, como "My body is a cage" e "Ocean of Noise", tentam recriar aquele clima meio "Crown of love". Além disto, percebi, nas letras, críticas diretas e indiretas à vida americana, à guerra santa e à MTV(!?) (ouvir "Windowsill" e Antichrist Television Blues). Acho um fator positivo, que demonstra a visão de um novo Arcade Fire, que não fez feio nesse CD.